Arte, porque a vida por si só não deu conta dela mesma





quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Una película.

Caros,
tengo una gravíssima informacion a revelar:
estoy con una terrible impresión de que mi vida es una película de Almodóvar.
Esto es muy grave. Son atentos? Está leyendo? ¿Me entiendes?
Oh, rogo-te, por Dios!!!! Colores brandas, tramas sin más reviravoltas, maremotos, mujeres y hombres en motos,bocas y ojos rojos e revolveres. Que más puedo hacer para esbranquiçar las colores, dolores, dolores, dolores, doloreeeeessss? Por Dios, Dolores????. Muchas emociones ya me fueran dadas. Basta!!!!!!
A g o r a q u e r o a c a l m a d e u m a á g u a d e p o ç o 
Os instantes são fugidios, só não são mais lentos que as lentes.
, pois em mim é o movimento lento da sua virada de cabeça. a voz doce à imagem da delicadeza dos fios finos rarefeitos claros cabelos desfeitos. a sua manha da manhã tardia. e toda parte da poesia que eu não poderia deixar ressoar em mim o eco. o eco. eco. eco. o eco ecoa ecoa ecoa escoa escoa escoa escorrega lá na saudade, deságua. cálida. calada. cada. dá? cá. e lá.
escorrega e esquece o rastro o resto o roxo os cacos o caos a mancha na pele da alma marcada. badalada do fim. relógio tardio. tragédia anunciada.
céu negro cântigo. sabiá virou corvo. passarinha perdeu asa. ora borboleta está lagarta. e eu com essa mania boba de plumar passado à nuvem branca, à lua cheia, cobertor de estrelas. essa mania de afago no afeto. afobada pra curar feto.
DEIXA GESTAR

(prosa-poética-continuação-do- verso-de-Gell Macedo)

Atônito


o tempo parado no meio do caos e dos cacos.
cuida pra não cortar por fora enquanto cata.
pena é a dor não caber na pá e ir ao lixo.

FLORES PARTIDAS

No meu quarto só caco
televisão lançada ao fel
sem power nem cor
desvario, vidros
dor e dó
sem tirar nem por
só pó e pedaços
da janela oca
um pé cortado
corpo caído
carne viva
moída em chamas
hematomas n'alma
o quadro é caos
a moldura, feia e bruta
ruiu na surra
depois, luto
pôs a perder até perdão
a porrada comeu o abraço
afiada no baço
mudo brado
tudo no chão
nada sobra
só sangra
amor quebrado

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

O POMBO



O seu corpo repousava sobre a cama numa aparência inocente e de sono tranqüilo. O ponteiro anunciava dez horas e o sol encontrava espaço para iluminar levemente o céu esbranquiçado. A varanda nua sem cortinas... e os olhos se abriam, e apertados, se protegiam da luz que o dia irradiava fora da menina. Antes mesmo que qualquer movimento fosse desenhado pelo corpo, um pensamento lhe assaltou à consciência, que agora desperta, se via capaz de lembrar: Será que meu pai está melhor? - Tão logo se perguntou, decidiu que não deveria pensar naquilo: Ah, melhor não esquecer isso, vou me divertir hoje. - Aos nove anos, quem prefere pensar em fatalidades a pular corda? Meninos, talvez. Fazia sol, era uma segunda-feira, dia de escola e escolhas e, portanto, melhor seria afastar os maus pensamentos. Havia bons encontros e muitas brincadeiras que lhe esperavam ao longo das horas que ainda iam passar. Ela não queria trazer consigo o peso que quase se propôs ao abrir os olhos.

Decidida a ter um dia feliz, pulou da cama sem preguiça nenhuma. O sorriso já se instalara no rosto com satisfação e glória. Quando ia saindo pela porta do quarto, já extasiada, deparou-se com a mãe. Ela não sabe exatamente como, mas a entrada de caminhada lenta, espaçada e o humor ainda indecifrável da mãe a empurravam de volta para dentro. A avó entrava com passadas mais firmes, mas trazia consigo a doçura de sempre. Seus irmãos estavam sentados cada um em sua cama, recém despertos também, mas ainda um pouco sonolentos: "Mamãe precisa conversar com vocês." - A menina sentou-se na cama. A mãe de frente para ela e a avó ao seu lado. Havia peso naquele instante. O peso do qual fugira no seu primeiro segundo de consciência do dia. Ela temia o que estava por vir mas como por um instinto de auto-preservação fazia expirar qualquer negativa de seu pensamento: "Não é nada, não é nada. Ela não dirá nada de mau.". Tentava, não fazia.

" Papai do céu levou o pai de vocês." - Um impulso vindo do estômago se espalhou pelas pernas da menina fazendo-a pedalar numa corrida que não sabia para onde. Mas ela não se importava mesmo com o para onde, corria sem pensar. Queria, na verdade, fugir daquele instante, sair daquele peso imenso, emergir daquele inferno, como se não estando ali a dor não a pudesse alcançar. Como se fora daquele ambiente, a realidade pudesse mudar. Ela não sabia para onde, mas corria. Aquele corredor da casa decerto a levaria a algum lugar longe dali. Era nisto em que, sem pensar, confiava a menina. Por trás, um braço forte enlaçou sua barriga segurando-a com a firmeza e a exatidão de que precisava. O cólo robusto da avó lhe acolhia o choro engasgado. No acalento daqueles braços que faziam repousar sua cabeça no peito largo, foi novamente trazida para dentro do quarto. Ali, exceto seu pequeno irmão de quatro anos, todos choravam ao ouvir as explicações da mãe: Foi melhor para ele. O médico disse que se o papai vivesse, teria ficado inválido. -" O que é inválido?" - quis saber a menina. - "Invalido é quando a pessoa não pode fazer nada sozinha. Andar, trabalhar, escrever, nem comer sozinho o seu pai poderia." Ela não queria saber disso, a menina. Porque nem doente o seu pai deveria ter ficado. Afinal, todos os pais tinham saúde, andavam, trabalhavam, faziam tudo. Por que aquilo fora acontecer somente e justo com o seu pai? Mas ela não disse nada. Guardou pra si seus pensamentos pois saberia de todas as respostas que os adultos despejariam para conforto próprio. Além do que, todos já entendiam que a hora do papai havia chegado pontualmente para levá-lo. - "Uma noiva caminhando rumo ao altar de braços dados com o o vazio não pode estar sorrindo. E agora? Quem vai me levar para o altar? Terei vestido branco, um véu rastejando infindo sobre o chão, buquê de copos de leite, grinalda de princesa, a música que eu ainda não escolhi... terei um marido a minha espera, mas... quem me entregará a ele? Quem poderá dizer para cuidar de mim em seu lugar? A princesa bailarina não serei mais, ou quem irá chamar-me assim? Os cafunés das tardes de domingo, as histórias deitadas na cama, as rosas ao final das apresentações de balé no fim do ano... uma menina sem isso é uma noiva sem par antes do altar." - Isso tudo acontecendo dentro de sua jovem cabeça até a avó atentar para o pombo que acabara de pousar na varanda: "Que engraçado, ele está ali tão próximo do vidro e não pára de olhar pra cá." Ela entendeu. Olhou para o pombo e percebeu a magia que a avó propunha para transformar o instante. Escolheu então acreditar que naquele pombo que observava atento ao luto de sua família havia um pouco de seu pai. Numa tentativa de comprovar para si sua decisão mística sobre o olhar daquele momento, cutucou o vidro. O pombo não se moveu. Bateu um pouco mais forte, com a ponta dos dedos. O pombo permaneceu imóvel. Espalmou até fazer barulho e finalmente a ave atenta resolveu mirar outro canto. Mas com muita elegância e sem o susto característico da maioria. Virou-se lentamente, deu leves passadas na direção contrária a da menina e voou. Despediu-se a menina ao vê-lo partir.

elA

domingo, 20 de outubro de 2013

ECLIPSE















Que olhar foi esse que me viu?
Me espiou, me despiu?
Olhar de passado de lado 
Um presente?
ao futuro me lança
escuro
me espiou?

Que olhar foi esse que me viu?

Descarado!
chamou-me chama
da loucura caudalosa
labareda
espaçosa
agitada
nervosa
preguiçosa de cessar
só ocio neura preciosa
sócia à nebulosa

Que olhar é esse que me navega?
como quem marinheiro ou andarilho aporta ilha deserta?
esse olhar que me explora como se eu floresta?

Olhou com olhar de esguelha
no escuro....
no escuro...
no escudo pulou o muro
e me noite me nua me lua crescente prazer

Descaradamente!

Noite de lua indecente
Me percorre
Cada chama lua minha Incandescente de Áries

Que olhar plutão foi esse que me eclipse?!
evidente
expoente
espreitou
escondido
escorpião

esse olhar que me escolheu me mar me turbilhão?
tremeu
transviu
transou
o verbo no verso do silêncio sou eu
e o olhar me viu sem querer bem que se quis não me ter
esse olhar viu que nada em mim e bebeu
águas profundas
tão fundas
que findas
que lágrimas

esse olhar que me deixa
atrapalhada me fogo n'água
esse olhar que me deixa
clara eu obscuro
esse olhar que me beija
sombrio à sombra que a luz do sol medra escondido atrás do luar
chama
ainda assim
chama
incendeia
a verve
a veia
o seio
descabelo, desaponto, despenteio
meio que sem querer bem que se quis não me ter

ponteiro anda parado sem parar
inércia do agito agito agito
piro pura pirofagia puta pathos pus pela pia
suor e sangue
áries entre si marte entrecortada arte escorpião eclipsada plutão
palavra colapsa

duas meninas...

que o olhar foi esse que nos viu?
na hora!
como se nos visse
como se nos fora
como se fosse embora
passado nos memória

teu olhar me demora o meu
branco escuro
obscuro e brando

meu olhar vazio ali sentado na praça fazendo só fumaça pela boca à mão automática o vai e vem do cigarro, poesia, desgraça.

eu no banco a esmo neve e branca em pleno sol de meio dia, Rio de Janeiro

viro inverno reviro inferno fogo chama marte e plutão

quedo-me queimo e pó

o olhar bem que me olhou bem que me quis não que querer mais e me passou pra trás me virou página
passado
mofo
amargo
amarelada

Ah! O tempo!
Passa marte nuvem plutão sol chuva lua áries escorpião, tudo eu nós no céu constelação!

O tempo também chora quando chuva mas passa vento sol e...

Ora essa! me vê mulher - olha!

a nuvem dissipa e o eclipse passou tão lindo, quem viu?

Que olhar foi esse que me descobriu?

Alessandra Gelio e Paula Uchoa Nunes
Plutão e Marte
Áries e Escorpião
de mãos dadas olhando para o arco-íris nos ver
pequenas sob entre sobre parte até da imensidão


terça-feira, 15 de outubro de 2013

CAIXA DE PALAVRAS


Ih! Olha ela, mas que louca!
Disse que ganhou um blog:
Que sou eu sua página!
Que pensa ela? Coisa pouca?
Faço papel
Página
Pincel
poema
porém 
pequena caixa pra tuas palavras, confesso, uma pena

aqui
não caberão jóias 
como essa assim
tão promessas
pérolas
cálidas
algas
almas profundas
Das águas raras
aqui 
tem coisa grande
Nada rasa
Gaivota mergulha
alça vôo 
mostra a asa
a que vem
seu bem é bico
se joga anzol
pesca poesia
sem modéstia
sem pança vazia

Ih! Olha ela, mas que louca!
Disse que ganhou um blog
Que sou eu, sua página
Que pensa ela? Coisa pouca?
Faço papel
Página
Pincel
poema
porém 
pequena caixa pra tuas palavras, confesso, uma pena

Pode escrever em mim o que quiser posso ser
teu papel
parede
porão de letras 
cravejadas de pedras no sapato
mágoa
qualquer
perda
pedra que valha

Pode escrever em mim o que quiser posso ser 
teu papel
parede
porão de letras
pintadas de amor no quadro
encontro
qualquer
nariz de palhaço
na gaveta do querer

Repito: 
papel
Página
Pincel
poema
porém 
pequena caixa pra tuas palavras, confesso, uma pena!

Pega teu lápis e rabisca o mundo!
Que esse sim 
gigante
merece
cada letra preciosa 
rascunho
ranhura
requinte
reprova, não!

Anda, não demora! 
Pega teu lápis, vambora!
Abre o cofre, tua caixa de Pandora!
Escancara teu armário!
AGORA
Sem ladainha 
Sem história!
sou pequena caixa pra tuas palavras, contesto, uma sentença!

Rabisca pra toda gente a bagunça do teu quarto!
amores jogados
teu desespero
a cabeceira
teu desamparo
cama embolada
a roupa não lavada à sério à sangue
príncipe ao brejo
ao breve 
ao beijo
vazio
porta-retrato

Abre!
a porta
o parto
o pacto
não entulha no sótão à solidão!

Entrega teu relicário pra toda gente?

Joga!
tua frente
teu verso
teu reverso
Joga no Universo!
Cada linha
Cada linda
Cada infinda
enzima tua memória 

Entrega teu relicário pra toda gente?

Teu inventário
jóias 
inglórias
vitória-regia
jardim do édem, santuário!

Entrega pra gente teu relicário?

Teu cenário
tropeços
trapaças
abraços
vestuário de afetos raros

Entrega pra gente teu relicário?

Teu mostruário
cantos
cartas
contas
colar de coisas mal pagas

Ih! Olha ela, uma louca!
Disse que ganhou um blog
Que sou eu a sua página!
Que pensa ela? Coisa pouca?
Menina, não se poupa!
Já é mulher, tira essa roupa!

Entrega teu relicário e rabisca o mundo então?

sou caixa pequena cheia, confesso, que gratidão!

Faço papel
picado
pipa
paixões
poros
poesia dos porões pipocam pra todo lado!

sou caixa pequena cheia, confesso, que gratidão!

Anel de bodas 
da amizade sem tempo
Guardado gratidão
na caixa d'alma
água estaciona nos olhos, confesso

Culpa desnuda 
da tua loucura
do teu convite
do teu poema
De tão grande não me saber pequena

Repito:
Abre tua caixa de Pandora!
Arrisca
Rabisca
Desatina 
Chove tua arte pro céu
Tua estrela
Tua esteta
Teu fel 
teu mel 
cada agonia 
cada alegria
casa na costura da grinalda e véu da tua poesia.

Rabisca o mundo e inunda com palavras tuas

do chão ao céu 
do mar à lua
do ashram ao quartel

Do rock à bossa
o mundo merece te ler nossa

domingo, 13 de outubro de 2013

PARA A PURA


Benção pura 
a vida apura
se apuro
aparece
você e prece

Benção pura
a vida apruma
se obscura
mistura
você e cura

Benção pura
a vida atua
se mingua lua
comunga
você e pluma

Gratidão pura

*poema escrito com meu eu puro para Paula Uchoa Nunes

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Ciranda

"Tá melhor?" - pergunta o coro.
Com sapiência responde o choro:
"Calma, meu amigo, que na vida tudo passa, até a vida! 
Então, que venha tudo, pranto e graça! 
Que assim é feita a avenida
Passageiros desfilam com fantasias ou carcaças. 
Porta bandeira da saia rodada
pro mestre sala sorri a dança da lágrima 
e feito adaga atira em corte indagação lançada
nesse carnaval das máscaras sem disfarce:
De que vale o passe,
se não pras coisas sortidas e choradas
na certeza doutros gajos conosco
cantando ciranda de mãos dadas?"

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

MINUTOS ATRÁS – filme de Caio Sóh


“Vou tocar uma música, que é pra quando a morte chegar, pegar a gente sorrindo”  (Alonso - Minutos Atrás - Caio Sóh)
Acabo de assistir o filme de Caio Sóh exibido hoje no cinema Lagoon pelo Festival do Rio. Que poesia!
Sim. É um filme de um poeta. Um filme de uma paixão. Um filme de um sonho. Um filme de um oceano que olha pra imensidão da vida e deserta e despe a alma de quem a espreita. O filme espeta também quem suspeita que tudo o que reside nos recantos de Beckett já foi feito e acha que hoje qualquer coisa posta nessa direção perdeu sentido. Nada disso. Caio prova que não. Muito? Vou explicar então. 
Minutos atrás eu assisti um filme que expõe a trajetória de Alonso e Nildo, dois personagens maltrapilhos que, guiados pelo cavalo Ruminante numa carroça feita de sucata, estão em busca de algo que talvez seja um lago, um irmão rico, ou talvez seja só esperança. 

Um é inteligente, perspicaz, malandro no verbo e no gesto, enquanto o outro, coitado, nenhum pouco, nenhum tanto, mais que simples, mais que bobo, quase um santo! E assim vão eles , entre ladainhas e balelas, percorrendo conversa fiada à dentro da estrada, percorrendo dedos e mais dedos de prosa enfeitada pela poesia das coisas feitas da vida, coisa doída, coisa divertida, coisa sonhada, passada e perdida, coisa mentira, verdade inventada... Graça fingida na cara da amizade tingida entre Alonso e Nildo. Que aliás... Estão hilários e emocionantes na pele de Vladmir Brichta e Otávio Muller respectivamente. E Mosca, travestido de Ruminante, também canta e encanta e guia a romaria da fé no horizonte, cuja dupla ora se entrosa ora se enrola quando bate a sede e a fome se dá. E o lugar... que nunca chega... com esperança atrapalhada há de chegar. 

Das palavras sagazes de Alonso e da ingênua ignorância de Nildo, saem diálogos poéticos e corriqueiros, profundos e dinâmicos, sensíveis e cotidianos. E o conteúdo, todo tão contemporâneo, sem ter de ser nenhum pingo urbano. Pelo contrário: particularidades da vida atual são postas em cena num cenário lúdico e atemporal, de um modo tão maduro e preciso que as vezes até nos ironiza , mas com delicadeza, o que é de admirar. 
Tenho a impressão também de que é como se Caio tivesse se permitido levar recursos muito próprios da teatralidade pro cinema e, com ou sem medo de errar, acertou em cheio, refinado e bonito. Um belo exemplo disso é o modo como Ruminante transita entre animal e gente, corporificando o homem e personificando o animal. A imagem figurativa toda engendrada tocando o espectador com som e instrumento do corpo do ator, o bicho humano que somos e as vezes nem se sente.
MINUTOS ATRÁS é um filme de poesia do início ao fim, do roteiro a fotografia, figurino a música, arte, tudo se afina numa lúdica e (aparentemente) simples esfera. A direção, dispensa comentários. É que eu não me contenho e tenho que acrescentar ao que já disse sobre o modo como o cavalo Ruminante é apresentado - apenas uma breve colocação sobre a belíssima escolha da coloração: aquele PB, envolvendo todo o cenário, dá um toque pontualmente especial a atmosfera da esperança de quem está desértico indo rumo ao nada, que podendo encontrar tudo e e inclusive nada encontrar. 
Chegando o the end, você entende, que apesar das aparências, aquela coisa toda Beckett transcendida está. Tá bem ali, na coisa oculta de Alonso, moço da graça sem culpa de ser feliz, andarilho no breu, sem culpa de ser tudo e até Deus . Tá bem ali, na coisa oculta de Alonso, moço que faz juz à vida que disputa com puta trapaça e cara de pau talhada na raça. Tá bem ali, na coisa danada de Alonso, a coragem de meter o pé na roubada de seguir a ermo - sem medo do vazio e de nada que a sorte não venha a soprar.
Pra terminar piegas, uma palavra prêmio do meu coração lacrimal que verteu pelo olhos um fio d’água pro PB da cena final. A síntese não é minha especialidade, mas em uma palavra (duas? tá, uma.): Divino. Vejam. Deleitem-se. 

PS: Palavra prêmio? Acho que foram três. Divino + Vejam + Deleitem-se = 3 ( ou 4? O pronome conta? Fuck off). Roubei no jogo. Mas tudo bem, Alonso diz que todo mundo finge. Eu fingi. Roubar no jogo vale como fingir? Pro Alonso vale. Ah.... Se vale!


Elenco: VLADMIR BRICHTA, OTAVIO MULLER E PAULINHO MOKSA


Direção: 
CAIO SÓH

Roteiro: CAIO SÓH


Produção: LUANA LOBO


Fotografia: RODRIGO ALAYETE


Montagem: BRUNO REGIS


Música: PAULINHO MOSKA e ANDRÉ ABUJAMRA


Empresa Produtora: MARIA FARINHA FILMES


Empresa Distribuidora: 
H2O Films

SANTA PUTA DO BOM CORAÇÃO

Hoje  ela tá domingo
A vida meio que ferida
Preferia estar dormindo

E a poesia,
matada,
morrida

Não lê saída, 
não comera,
não sorrira

Rosto sem fachada, nem maquia...

Hoje ela é sala vazia
Sem sofá, mesa indisposta
tudo é vácuo até a porta.

O vaso quebrado
Já nada
entre as flores doloridas
N'águas amargas
afoga alma murcha
no chão derramada

Liga não, sem velório!
Só uma puta filha da puta
Santa oca a dar no pau!

Vale nada, coisa pouca!
Nem a marca do batom
borrado vermelho na boca!

Vale nada, coisa pouca!
Nada que preste, tá gasta
Sem graça, pra que prece?

Vale nada, coisa pouca!
É só uma quimera perdida
uma merda de vida
um quisera qualquer
 mulher partida!

uma bobagem, um porém, um senão

Vale nada, coisa pouca!
Vale não...

 Nenhum resto de praga
nem migalha
Tem nada nessa puta velha que valha
Tem não!

 Nenhum anel sequer,
nem farelo de pão

Tinha, dizem por aí,
doses de alto teor de amor no coração.
Mas esse tum tum tum aí, já que parou...
Já não vale nada não.

Enfia logo debaixo da terra essa porra de caixão.
Enterra logo, que a filha da puta num minuto vira santa!
Vai ver se não!
Santa Puta do Bom Coração.

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

HOJE, guarda, tem?

Tem guarda- chuva?
Guarda-satélite?
Guarda-humor?
Guarda-sorriso?
Guarda-amor?
Guarda-esmero?
Guarda?
É cinzeiro ou é sincero?
Tem guarda-chuva?
Guarda-cadente?
Guarda-café?
Guarda-fada
Guarda-sonho?
Guarda-fé?
Guarda?
É enchente ou é axé?
Tem guarda-chuva?
Guarda-lua?
Guarda-lápis?
Guarda-palavra?
Guarda-canção?
Guarda-embrião?
Guarda?
É criatura ou coração?
Tem guarda-chuva?
Guarda-estrela?
Guarda-esteta?
Guarda-afeto?
Guarda-fato?...
Guarda-carta?
Guardanapo de poesia?
Guarda?
Guarda-lembrança?
Tem?
Temperança em tempestade é o céu!
Tem?
Aguarda que o sol tá lá.
Guardando a esperança com a manha de ver passar no tempo a nuvem do ontem de amanhã.

terça-feira, 24 de setembro de 2013

O CÉU ESTÁ VAZIO






Ela ora borboleta, agora passarinha
não cantarola,
mete o  bico, a pena, e escrevinha:

 Me desculpa
roubar teu silêncio?
Inventar de arrancar teu vício, teu viço?

 Me desculpa
inventar de tirar teu vento que venta brando?
teu documento e até o lenço?

 Me desculpa?
inundar tua poesia ,
invadir com mil palavras  tua paz?

 Me desculpa
abraçar feito Felícia tua causa?
Arrumar teu descaso?

 Me desculpa
meter meu bico na tua bagunça?
Bagunçar teu sossego?

 Me deculpa
esgotar teu poço?
secar tua sede?

 Me desculpa
o terremoto na tua rede?
tempestade no teu lago?

 Me desculpa
qualquer estrago?
qualquer harmonia, arranjo quebrado?

As flores murchas fora do vaso...

E a tpm, me me perdoa, faz da nossa melodia esse disco arranhado.
A nossa melodia, nosso mel de todo dia...

A nossa música nunca mais tocou? 
Desliga a vitrola, carambola!

Sinto muito, mil perdões...
o arroubo,  o escorpião
o tudo ou nada o senão
se não tudo vira bosta
em plena primavera
o que era uma vez
vai pelos ares 

os dois pombinhos...

se chamavam sabiá e passarinha
piu, você é meu
piu piu, você é minha
caem num céu de desencanto
trocam o repertório
assobiam a marcha fúnebre
depenados, dispensam o casório
Passarinha canta, desafina,
desbaratina alto,  perde o ritmo e a rima
sabiá pede silêncio
qualquer céu azul sem música
fica um cinza imenso
o silêncio corta tudo
muda o clima, nuvem, nubla
paisagem modo mudo
silêncio corta tudo
até asas de passarinha
que agora borboleta ,
vira lagarta, perde a cor, o azul e o ninho
se arrasta preta n'outro caminho 

o céu está vazio
nem mais um pio

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

FLORES BÁRBARAS



20.09.2013
Após saltar do ônibus sob esse céu azul de setembro, andei uns cinco ou talvez sete minutos desorientada, indo e vindo, parando e voltando, pensando em sentar na calçada suja e por ali ficar, mas decidi que nem tanto,  indo e vindo e voltando até entrar numa loja de conveniência e entornar umas doses de cappuccino sabor alpino e alguns rios de lágrimas. Maluca, louca, insana? Talvez um pouco, mas nem tanto. Poderia estar entornando vodka e cocaína narina abaixo mas eram só cappuccino e lágrimas. 

A loja que abrigava a minha liquefação era aquela que fica ali num posto de gasolina bem na  Rua da Passagem no bairro de Botafogo do Rio lindo de Janeiro. Tentei ligar pro meu namorado e ver se ele me dava um cólo, um colchão, um caldo de compreensão, mas tem hora que a coisa só nossa mora só na gente e não adianta quem diga “siga em frente”.  É que tristeza as vezes se demora num tempo só dela e precisa descansar em banho maria até escorrer e escoar os ecos que vão sumindo e virando, no momento certo, pretérito.         


É bem verdade que há quem prefira e até goste do desgosto e desmorona e esmorece e escorrega o corpo porta abaixo e vai ao chão arrastando a dor até a cama, a alma desbruçada no dilema feito drama de cinema. Não é meu caso não. Até já foi. Mas não é mais.       

O que me fez ficar assim,  liquefeita e liquidada, foi uma roleta russa que acertou bem a mira e, entre rumores de suicídio, homicídio e genocídio - generalizada barbárie – atirou contra o jardim no coração implantado.                

 O caso é que não gosto de mortes. Não conheço quem goste embora saiba de povos orientais, eslavos e indígenas que celebram com rituais festivos a passagem de seus finados para outro plano. Outro plano, aqui, ainda não é o caso.        

Quem morreu?                

Tento fazer um inventário de relíquias memoráveis moradoras de mim e o que me vem são flaches recortes de textos, gestos, risos, choros, palavras e músicas, vozes femininas, pedaços de mim e de outros cortados e colados com girassóis, rosas e espinhos num painel cujo enterro segue e a ser velado por minha sinfonia lacrimal a luz de velas e uma seleta coroa de flores bárbaras: Begônia, Margarida, Tulipa, Camélia, Rosa, flor de Lis, Crisântemos e Antúrio, Hortência.                    

Foi tanto que nem sei quão tempo empregado e impregnados de afeto, dedicação, superação e coragem há de se destacar. Não sei quanto passado e planos, quantas verdades e lembranças inventadas há nisso então. Quanta ficção, quanta cena, quanto suor, quanta troca, quanta alma, quanto corpo e torpor, quanta dor, uma cadeira de cada flor, cor, palavras de cór, Almodovar, Tim Walker, quanta substância de amor se faz desritmar sem rima alguma, sem conversa, verso, nem prosa.          

As rosas viraram sangue escorrendo dum balde de criação. Mais que resto, que renda.     

Um ano e pouco se foi desde o início e agora, no fim, nem sei com o quanto de humano se pode contar quando o encontro no  horizonte está em cheque.                 

Um ano. Um tiro. Uma morte. Roleta Russa.    
E agora ao meu luto, se me permite, retorno. Após entornar algumas doses de lágrimas e cappuccino sabor alpino da Nescafé, enxugo as lágrimas e me levanto. Prumo novo rumo. Já disse em algum lugar - perdi n’algum canto a vocação pra ser triste e ganhei o poder cristal dos chistes. Algo com aquele lance de escorpiana que lança mão da fossa, sai do poço  pro posso,  renasce das cinzas e alça vôo feito águia imensa no céu. É que (acho), sigo com fé em Deus, na vida,  e boto pé na estrada e amor na avenida. A espiritualidade me aconchega e me diz na voz  de Bethânea: "eu não ando só". E embora eu não goste da dor que sinto nas mortes, acredito na reencarnação. Estou sóbria e de pé, vivendo com arte e axé. Não dou ré, religião mas mais ainda ela, a fé. Talvez eu só não goste de mortes por dor, mas mortes com amor...Essas talvez eu ainda hei de inventar de escrever entornando sorrisos em novos papéis. 
Hoje choveu em mim, mas li por aí que amanhã serão 21 e a primavera chega aqui.  
Sim. Novas flores virão. 








quarta-feira, 11 de setembro de 2013

MENINO MAREJADO DOS MEUS OLHOS


Na minha saudade mora um menino alado,
de cabelo dourado e fronte de sábio, meu conto de fada. 

Na minha saudade mora um menino astrolábio,
que me pousa em sonhos o sorriso secreto com aquele mel só seu de sarcasmo. 

Na minha saudade mora um menino calado,
que tudo transvê com seus olhos oceano profundo de antepassado.

Na minha saudade mora um menino encantado,
de alma pura e eu volta meia procuro por todo lado, e d'outro.

Na minha saudade mora um menino epitáfio,
que me enfeita a lembrança com a sabedoria milenar do abraço.

Na minha saudade mora um menino invisível,
que no ouvido me sopra palavras, surfa em carícias, coisas afáveis de alma amada.

"A gente sempre briga, mas a gente sempre faz as pazes" - e riu.
...último reveillon do resto de nossas vidas...